segunda-feira, 7 de junho de 2010

Ultima palavra sobre amamentação

Com 1 ano e 3 meses, Guy ainda mama. E não haveriam tantas razões pra comemorar, a não ser pelo fato de que isto não é tão comum assim, como deveria ser. Os médicos, a ciência e a mãe natureza, recomendam veementemente a amamentação por dois anos ou mais. Por isso me espanto quando, frequentemente, as pessoas se espantam quando digo que Guy ainda mama. Até as pessoas mais instruídas, estudadas, apuradas e polidas. Mesmo aquelas mães que não amamentaram tanto, mas sabem do valor desta duradoura amamentação. Nem sequer aquelas mães do interior, da roça, do mato, em quem a inteligencia instintiva veio se formando desde há milhares de anos. Encontrei resistência, inclusive, para o aleitamento exclusivo até os seis meses, em lugares onde jamais imaginaria: minha sogra, obstetra, e meu pai, médico cardiologista. E no mato também, onde dizem que para o bebê, leite é como água e por isso ele chora: de fome.
Diante deste cenário, encontraria um milhão de bons motivos pra tirar o peito.
Mas não encontro. Não trabalho, não estudo, não preciso ficar muito tempo longe de casa. Guy não me morde. Não fica pedindo peito toda hora. Mama só uma vez por dia, pra dormir. Não pede pra mamar na rua. Não fico com fome demais. E, finalmente, adoro dar mamar ao Guy.
Por precaução, tenho guardado na minha gaveta, um saquinho de 'aborrecida', um pózinho amargo que a Nanda, mãe da Luíza, me recomendou, dizendo ser batata pra tirar o peito.
A aborrecida acabou tendo outro efeito: tranquilizante. Se eu não quiser mais amamentar, tenho a solução. Está alí na gaveta, quando quiser parar eu paro. Então, fico mais relaxada pra...continuar amamentando.
Resultado: Guy é muito forte, muito saudável e não é gordo. Nunca teve uma gripe, nunca vi um catarro escorrendo pelo seu nariz.
E olha que eu não sou a mãe mais cuidadosa do mundo. Guy toma gelado, toma banho frio, vive pelado, vai a praia no final da tarde e toma vento na cara. Quase nunca levo uma toalha ou roupas. Não é com orgulho que confesso isso, mas uso esses deslizes como dados pra você ver que o leite materno é realmente uma vacina.
E, é com tristeza que nesses ultimos dias tenho detectado que meu leite está acabando. Guy puxa com força e fica reclamando. O peito tá muchiiiiiiinho. A aborrecida tá ali, já dei metade pra uma amiga.
Fico triste, antecipando a nostalgia que vou sentir quando Guy não estiver mais me fazendo seu carinho.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Desculpem, mas não tenho fotos dessa aventura

Guy está supimpa, bagunça muito, apronta bastante mas, comparando com outros bebes, ele é bem tranquilo, pois brinca sozinho, não fica pedindo colo e está sempre bem humorado. Ta certo que ele tem uma personalidade bem forte, dá altas broncas, principalmente nos outros na rua. Quando alguém vem falar com ele, logo leva uma bronca, ele fala muito, suas palavras peculiares, que só ele entende, mas é muito engraçado ver Guy falando. Quando vc fala a palavra capoeira, ele começa: bota perna pra cima, encosta cabeça no chao, faz rolê, queda de rim.....e toca pandeiro. Andar é que ele tem um pouco de preguiça. O caso é que ele é muito pesado. Não que ele seja gordo, pois não é mais. Parou de mamar de noite e emagreceu bem. Mas ele tem uma estrutura bruta, um torinho com certeza, então é pesado e fica difícil se equilibrar.
O menino é radical, agente joga pra cima, dá cambalhota, vira de ponta cabeça, corre e pinta o sete, ele adora tudo e dando gargalhada. Não tem medo de nada e topa todas as nossas aventuras radicais.
Olha, vou te contar uma pra vc ter uma ideia. Era uma vez, fomos passar a semana lá na Ambuba, numa casinha na beira do rio que agente pegou emprestada. Fomos de Jesebel (de moto) atravessamos o rio de Contas numa canoa (guy, breno, a moto e eu) e entramos numa daquelas estradas brabas sabe? cheia de poças profundas, buracos, lamaçais, areais, pedregulhais e até um rio pra atravessar (nossa, pra chegar em Ambuba tem 4 rios pra atravessar - um de canoa, um de moto mesmo, dois a nado). Até aí tudo bem, Guy dormiu a viagem inteira. Então chegamos em Ambuba, atravessamos o mangue com água na cintura, atravessamos o rio Ambuba a nado e subimos a ladeira pra falar oi pro pessoal. Depois voltamos pra pegar uma canoa e subir o rio Ambuba até chegar na casinha. Só que já era finalzinho de tarde, e vc sabe, canoa é lenta, conforme subiamos o rio, a escuridão ia caindo. Até chegarmos a uma cachoeira que não estava no script.
É que pra chegar na casa de canoa, só quando a maré ta cheia, pois a água encobre esta cachoeira. Calculamos errado e a cachoeira estava lá. Já era noite. Eu pensei: fudeu!!! Breno nem falou nada, foi logo jogando a canoa por cima da cachoeira. Eu e guy saímos lógico, mas a canoa só já pesa uns 200 kg. Ele falou, deixa guy aí e vem me ajudar.Eu acomodei guy numa pedra e fui pra luta, a noite caindo cada vez mais, já não se via quase nada. Eu quase desisti, a água empurrando a canoa pra baixo, e agente puxando, Breno urrava pra soltar sua força,...e Guy, sentadinho na pedra, olhando tudo...rssrsrsr
Enfim conseguimos. Como prêmio, a mãe Yara dos rios fez um peixe pular pra dentro da canoa, uma taínha bem carnuda. Breno se jogou por cima da gente, agarrou o peixe a matou no dente, como fazem os índios. A janta tava garantida. O resto do caminho, como a merá tava seca, a canoa só encalhando, Breno desceu e foi empurrando.
Chegamos na casa baixo o breu da mata, iluminados por uma vela que eu achei nos confins da mala. Foi ótimo, tomamos banho la no rio mesmo, comemos o peixe e dormimos. Guy dormiu na rede, dormiu tão bem que não acordou nenhuma vez durante a noite. Guy adora a Ambuba, ele fica engatinhando naquele terreno, pra lá e pra cá, correndo atrás das galinhas, comendo feijão com farinha,tomando banho em bacia de alumínio que a velha põe pra ele. Do rio entao nem se fala....é um verdadeiro peixinho. Daí, outro dia que estavamos na casinha, na delicia do ócio, de não ter nada a fazer, achamos uma jangada de paus, de bobeira, em cima dacachoeira, e decidimos dar uma volta com ela. Vamos até a casa do Caramelo, um amigo nosso q tb é na beira do rio. A jangada ia, bem zen, morosa, aquele rio lindo, todo selvagem, sinuoso......um silencio, ...de repente, Breno bateu o remo numa galhada onde havia uma casa de marimbondos....logo ele tomou umas 4 picadas, pulou na água arrancado Guy de meu braço, eu pulei na água tb...Breno foi puxando Guy e eu puxando a jangada.....olha, Guy não teria chorado pela queda no rio, mas levou de graça uma picada. Chorou sim, pois dói mto, mas logo depois chegamos a casa de Caramelo e Guy foi com toda sua saúde e curiosidade explorar o terreiro, sem mágoas contra as abelhas.
Calma que não acaba por aí
No dia de irmos embora, estavámos sem canoa, e tínhamos que pegar uma trilha imensa, com Guy, malas e tudo....queríamos naõ ter que fazer essa trilha, decidimos então colocar o nosso colchão inflável na água e descer o rio....Breno foi deitado, remando de braços. Eu e Guy atrás.....lógicamente, mto confortavel, Guy até dormiu, e chegamos no porto de colchão.....descemos o rio de colchão.
Realmente nosso pequeno parece ter um espírito bem aventureiro, topa tudo e adora.....agora a
sensação mesmo esta sendo um velotrol que ele ganhou da dinda e que nos fez aposentar o carrinho...pra todo lugar que vamos com o Guy, vamos de velotrol, que tem um cabo pra empurrar....e AI de quem queira tirar Guy do velotrol, leva maior bronca...rssrsrrs
Desculpem, meu maior erro é nao ter uma camera pra registrar a passagem do tempo, por enquanto o post serve de imagem.....

domingo, 21 de março de 2010

Parabens a todos nós










As lembranças de minha vida sem Guy são remotas, como se fossem apenas um filme que eu vi, e me lembro. Guy é tão essencial que não me imagino, antes ou depois, sem ele. Bem, esse primeiro ano foi realmente a grande batalha, foi como andar em terreno desconhecido, cheio de minas que se explodem em choros, risos, novidades, noites perdidas, noites bem dormidas. Foi como uma estréia no teatro. Eu nunca havia encenado nem ensaiado esta peça, mas a platéia estava lotada, eu espiava pelo vão da cortina e tinha medo de abri-la. Mas eis que a sirene tocou, e a cortina tinha de ser aberta. Dava um medo? Dava! Dava um frio na barriga? Dava! Dava vontade de sair correndo, voltar pra casa e me esconder sob o lençol? Claro que dava! Mas não dava. Eu tive que abrir a cortina, com medo e com tudo. E lá estava a platéia, pra me vaiar e me aplaudir. E mesmo sem conhecer o palco, eu dancei bem, até gostei da musica, e vivo aqui como se fossem os únicos dias de minha vida. Nada antes, nada depois. Um ano se passou sem que eu contasse os dias. Guy já é um mocinho, pois possui 8 dentes. Pois já deu 3 passos. Pois dorme bem a maioria das noites, inteiramente, as vezes até cai de sono sozinho, de exaustão, sem peito nem colo. Por conta disso emagreceu.
Eu, de tola que sou, achava que Guy não agüentava ficar longe de mim. Pois já provou que fica sim, e fica muito bem, talvez até melhor pois sem a mãe não há como fazer manha e a vida é encarada de frente. Guy escova os dentes, assiste a desenhos, tem preferência pelo Madagascar 2, e canta a musica remexendo muito. Guy não gosta de roupa, adora o mar, não come banana, adora iogurte natural light, sem açúcar nem mel nem nada. Guy reclama de tédio, e nesta cidade, já pode se candidatar. Guy tem querer. Quem diria um ano atrás Guy era uma porrinha germinando, agora é gente e tem querer. Quem diria.
Em seu niver recebeu a vovó, o tio padrinho, o outro tio, e dois amigões, bem mais velhos, tipo, 6, 9 e 10 anos. Teve bolo com cerejas, vela, chapeuzinho, refrigerantes e balões. Ganhou presentes e comeu bolo, Cantou parabéns pelado e depois dormiu, dormiu a noite toda, como nunca parecia que iria dormir.
Parabéns peixinho! Que seus anjos da guarda te protejam e te dêem muita sorte nesta vida. Mamãe não fotografou porque a câmera morreu, usemos a memória de quem esteve lá.

sábado, 30 de janeiro de 2010

A melhor maneira de melhorar a aparencia é um sorriso











Outro dia uma leitora me escreveu dizendo que estava me sentindo muito triste e infeliz, por conta do que ando escrevendo aqui.
Bem, deixe-me retratar

Vinícius já me ensinou que a mulher (e a vida) tem que ter qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa que chore, que sinta saudade...um molejo de amor machucado...

Também me disse que o samba precisa de um pouco de tristeza, senão não se faz um samba nããããããão!!!

Meu professor Edson, que com certeza não se lembra de mim, nem sabe o quanto marcou minha vida...ele disse que nós devemos aceitar os INCONVENIENTES INDISSOLÚVEIS LIGADOS À VIDA.....nunca mais me esqueço destas palavras

Disse mais, disse que devemos rir de nossos erros, de nossos defeitos, de nossas frustações...rir é AUTOPSICANALIZAR, TERAPEUTIZANDO-SE.....também não me esqueço deste toque.

Além do que, não se escreve um livro de uma vida feliz....

Imaginem só se eu escrevesse aqui apenas as glórias. O blog ia ser uma punhetagem, ninguem ia ler. Como minha vida é linda e tudo é perfeito. Realmente minha vida é linda, (Olha, eu subo remando todos dos dias o Rio de Contas, posso ver a lua nascer deitada no quarto, e Breno ainda me traz café na cama) mas nem tudo é perfeito. As alegrias agente canta no dia dia, sorrindo e gostando, as dores agente transforma em poesia


Enfim, temos nossas frustações, (Breno por exemplo, adoraria ter um balão..e não tem ainda....e nem prancha de surf pois a dele quebrou).

São das frustações que nascem nossa retórica, nossas canções, poesias, quadros, fotos, sonhos...

Sonhar nos mantém vivos

Quando escrevo aqui minhas dores, automaticamente me curo delas....cada drama que vc pode ter lido aqui, foi superado pelo poder confissão

Bel, tem certas coisas que são difíceis confessar mesmo

Mas rir é o melhor remédio

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Guyão já pode ir pro mundo




















































Guy jah sabe o essencial para esta vida.
Aprendeu a mandar beijo, pois o amor e a amizade é o motivo de virmos ao mundo, é o que torna nossas aventuras reais; pois a felicidade só é plena quando é compartilhada.

Depois disso aprendeu a dizer tchau, para que nunca tenha medo de ir-se, de aventurar, de conhecer, de deixar histórias velhas e começar histórias novas. E até para aqueles que ele reservou seus beijos de amor, possam deixá-lo continuar sua estrada.

Sem muito esforço aprendeu a mostrar a língua, pra ver que ele não está nem aí coma opinião alheia.

E quando aprendeu a bater palma, estava celebrando a presença das pessoas de sua vida, dizendo parabens e muito obrigado. Dizendo com o corpo..."gostei!!!!"....porque um peixinho tende a gostar mais do que desgostar...

Guy já está de pé, de´pé com punhos para a vida....teso, firme para o que der e vier...ainda não anda, mas imaginem só, um ser de 10 meses, que já esplora de gatinhos cada centímetro de seu mundo, pega tudo e registra com seus olhos grandes, negros e curiosos....e ainda seus amigos pajés dizem que guy andará na lua cheia de fevereiro.

E guy jah aprendeu a se comunicar, fala com todo mundo. Já dizia um velho sábio, quem não se comunica, se trumbica......o celular Guyão põe no ouvido e diz alô...só porque eu quero mesmo que ele vá pro mundo.....e pise descalço todos os chãos que ele quiser percorrer, mas que nunca deixe de me ligar, pra dizer que ta tudo bem, ou pra dizer, mamae...esse lugar é manero...venha logo!!!

**

PS.: a pica ele também já descobriu....sua maior arma contra e afavor das mulheres;.....esses seres animados por exú.......

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Milan Kundera me console


Em São Paulo sou preta, na Bahia sou branca.
Na Bahia meu cabelo é liso, em São Paulo meu cabelo é ruim.
Eu sempre fui rica de mais para ser considerada pobre,
sempre fui pobre demais para ser rica
Esta pequena dificuldade de enquadramento sempre fez com que eu me sentisse excluída
Nas comunidaes pobres por onde ando, sinto-me culpada por ter uma casa própria, sólida, e por ter o que comer todos os dias.

No metie dos ricos, sinto-me suja, ignorante e desatualizada por não poder compartilhar de suas novidaddes tecnologicas e de seus conceitos de moda. O desejo consumista é superfluo e caro. As vezes passo em frente a uma loja e seus produtos viram objetos de desejo. Crio em mim a necessidade desses produtos, necessidade que não existe de verdade, mas que eu crio e por isso necessito. Por não poder comprar, sinto-me excluída. É semelhante a uma fome. Lógico que não tao grave ou dramatico como passar fome estomacal, mas fico faminta e vou pra casa frustada. com o estômago mental roncando.

Eu e meu marido somos de famílias um tanto abastadas, e tudo o que temos devemos a nossos pais. Sem eles, ou o que eles nos deram, somos pobre-pobre-pobre-de-marré-de-ci.

Pois, quando estou na labuta do meu dia a dia (eu não preciso trabalhar pra comer e isso me torna rica, mas eu passo o dia todo nos afazeres da casa, e isso me revolve à pobreza), penso as vezes em Bruna, que foi a primeira namorada de Breno. (Olhem bem que eu não penso em Bruna com ciúme ou inveja. Acho ela linda mesmo e super legal....apenas a utilizo para fins reflexivos). Breno sempre a descreve como uma garota 'capa de revista'. Linda,
loira, gostosa. Na praia, as pessoas se apressavem em fotografá-la. Se fazia top-less, era briga na certa. E pra melhorar, Bruna é rica. Nasceu rica - o que a torna ainda mais linda. Bruna nunca teve que sujar as unhas no bombril, nunca suou às bicas cavalgado com bravura um rôdo.

Linda, loira e rica. É o ideal de vida que todas as mulheres do mundo gostariam de viver. A vida de Bruna é um sonho. Não é realidade. (Bruna não deve comer pao com manteiga porque é o que tem, nem nunca lhe faltou dinheiro pra comprar um remédio)

As vezes me pergunto se Breno e Bruna tivessem se casado, ela estaria aqui limpando o chão de joelhos, ou estaria Breno empresariando em Salvador?

Me falaram da leveza e do peso. (A mim também Celo)
Será que a leveza da vida de Bruna a levará ao peso por nunca ter tocado a realidade?
Ou talvez eu encontre a leveza no final do dia, quando depois de lavar, cozinhar, limpar, varrer, arrumar, encontre a casa finalmente limpa, ainda que por alguns minutos. Ou ainda, a leveza me venha no final da vida, quando eu olhar pra traz e ver que valeu a pena.....enfim....Milan Kundera, me explique!

Ainda não encontrei a leveza do meu fardo.
Chego ao final do meu dia cansada, pesada. Mais feia, mais velha e secretamente triste.

Triste não porque queria ser rica, ou loira (ainda sou linda tá!), mas porque pra varrer e lavar roupa não é preciso pensar.

Varrer e lavar roupa atrofiam o cérebro. E eu, que adoro pensar, perguntar, estudar, passo o dia todo atrofiando meu cérebro.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Parabéns aos machos desta casa




Era aniversario do papai, trintão...lingo, gostoso e orgulhoso, maduro e moleque


Era aniversário de Guy, 8 meses, forte, pesado e sapeca.....10,6kg


Fomos tomar banho de rio, comer feijão na beira do fogao de lenha, tomar cafe da roça, remar canoa, jantar a luz de velas...pedir a força dos orixas na caxoeira


Ficamos nesta casa aí, na beira da caxú......um presente de nossos amigos-anjos




































Mulheres da vida

Eu sempre invejei as prostitutas, e sempre me senti fraca diante delas. As prostis, como sabemos, são mulheres da vida. E nós, as não prostis, o que somos? Somos as mulheres dos nossos contos de fadas. Revivendo as histórias que ouvimos, por medo de pisar no chão. As meninas da vida não revivem o velho relato dos contos, com seus finais 'felizes'. Elas caminham pelo desconhecido e isso as torna reais, 'da vida'.

Eu mesma, mulher de-faz-de-conta, conheci raros homens que já foram a bordéis. Os homens dos meus contos nunca foram a bordéis, não precisam disso, jamais pagariam pra ter uma mulher.

As mulheres da vida conhecem os homens da vida: nossos maridos, nossos amores, nossos pais e nossos filhos reais.Nós só conhecemos homens que não existem.

Isso me faz lembrar um pequeno escritor (pequeno não na escrita, mas no tamanho) amigo meu que fala francês. Outro dia, eu e Meu Amigo Pedro recebemos a visita de um colega frances, fotógrafo da Magnun, que viaja o mundo vivendo e grafando os bordéis de sua vida. Para ciceronear nosso colega, Meu Amigo Pedro sugeriu levá-lo a um bordél no Largo da Batata, nossa morada. Mas Meu Amigo Pedro não fala frances, nosso colega tampouco fala português e eu, lembrei do pequeno escritor. Liguei para ele pedindo que os acompanhasse e ele recebeu meu pedido como uma ofensa mortal.

"Fernanda, eu jamais iria a um puteiro", disse ele quase com nojo.

Resultado: eu, que não falo frances, mas falo espanhol, guiando nosso fotógrafo pelas luzes vermelhas de sampa.

E o que eu vi nestas casas da vida? Homens, muitos homens - por incrível que parecesse. Homens vindos de um mundo mais real que o meu. Estavam lá meus amigos, meus amantes, meu pai, meu filho, estes homens que dizem a nós, mulheres de contos, que eles nunca vão às mulheres da vida. Até os pequenos escritores, que jamais iriam, estavam lá.

*

Era quase madrugada. Guy tinha acordado animadíssimo e em mim e em Breno bateu aquela fome. Fomos no posto de gasolina, onde uma chapa 24hs fabrica o sanduiche mais podrão da cidade - o mais consumido, o mais real.
Chega uma doida, com a boca travada, com idade de criança e atitude de experiente. Uma mulher da vida de Itacaré. Conhecia Breno. A mim chamava de 'gata', como se eu fosse uma menina inocente e mimanda, que deve ser elogiada, e a quem não se pode contar as coisas da vida. Eu me sentia mais que isso. Sentia como se fosse um quadro na parede, destes que mechem os olhos e a tudo observam. Meu desejo era pular da parede para a sala, do gesso para a vida.

Aquela menina da vida abraçava meu marido como se fossem bons amigos. Estava sinceramente emocionada (estava travada é claro). Pegava em seus ombros e se demonstrava feliz em ver Breno com sua mulherzinha e seu filhinho. Ela parecia conhecer nele o homem que eu nunca conheci.

Eu era a mulherzinha, calada pela fome, sentada no banco, devorando com gôsto um hamburquer que eu nem gosto, comendo aquela comida de mentira.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Meu mundo por um jogo de Le Creuset


Em outros tempos, eu olharia pro céu e planejaria uma fuga estrada afora, talvez comprar um fusca e me mandar pra amazônia, talvez viajar de moto pelos vales de Minas Gerais, talvez me esconder do mundo e ficar de junto às baleias nas praias geladas do sul do país. Mas minha atualidade é outra, e sem querer, eu, em plena noite de namoro com meu conjuge, olhei pro teto e pensei como seria bom ter um jogo de panelas le Creuset. Pensei que, pelo valor de mercado destas jóias da cozinha, jamais compraria uma, mas imaginava alguém que pudesse presentear-me-as.

Quando solta, solteira, eu sonhava com uma estrada sem fim, numa caranga movida a vento. Hoje, casada, dona de um lar, amarrada a manutenção da posse, sonho com as le creuset.

Moral da história: você pode produzir os sonhos mais profundos, almejar as estrelas mais distantes, mas a realidade te esmaga.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Hein minhas tias, já tive seis meses


Logo aí aprendi a sentar, e já tomava banho na bacia, brincando com a água, e quando ninguem tava vendo, eu me curvava pra beber a água da banheira, era muito interessante.
Eu falava "na badava namama guagruuuuuuu e papa", também "griiiiiiiii" Quando bravo eu falava "mau mau mau mau". Quando queria que me olhassem, falava "É - ébua-á". Eu sei que é uma linguística muito complexa, mas sempre funcionou.


E eu tento engatinhar e meto a testa no chão, choro um pouco e depois eu mamo e durmo.
E tenho uma caixa de remédio velha que é meu brinquedo mais querido.
Já quebrei um copo, derramei um café, picotei um jornal e meti a mão no prato de papinha.
Ah, já como papinha, e fruta, e água de cocô, e só.
Tem um dente na minha boca que já rasgou a gengiva, e ninguém viu, não doeu, nem chorei, quando vi, tava aqui.
Eu vivo caindo da cama, do sofá, do colchão.
Chego na praia, logo durmo. Minhas vacinas estão em dia. Tá tudo supimpa.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Cadê meu ser caótico?


Mamães que leem este blog, respondam-me por favor, por onde anda o ser que vos habitava antes de tornarem-se mães?
Eu ia andando pela rua meio tranquilamente, portando um tripé e uma câmera. Ia fazer as fotos de uma livraria na orla e Guy ficou com Breno. Carla, uma colega nossa, mãe de dois filhos pequenos (Caléu de 9 meses e Rudá de uma ano e meio) ia passando de bike, meio apressada, com os pães.
Cadê o Guy, perguntou sem parar a bike. Tô sozinha hoje, livre!!!. respondi entusiasmada. E ela: ai que delícia!!!
Imagino que pra Carla a conotação de 'estar sozinha' deve ser muito maior pois ela, com dois pimpolhinhos, deve conseguir este feito com muito menos frequência.

Continuei minha caminhada rumo à livraria. Como seria bom se nós mães pudéssemos dar-nos mais a este deleite: ficar sem os filhos. Cheguei no local das fotos, o portão fechado, as janelas cerradas, ainda era manhã. Não serei impertinente em bater e tirar as meninas do sono, ou forçá-las a receberem-me de pijamas. Dei meia volta e pensei: vou aproveitar pra fazer alguma coisa e....
Que coisa? que posso fazer nessas duas horas de liberdade? Aí me deparei com um muro. Eu nao tenho nenhuma idéia, a não ser voltar pra casa.
Quero dizer....fico rezando pra Guy pegar no sono e quando ele dorme fico feito barata tonta pela casa, procurando o que fazer, sem no entanto encontrar. Finalmente ligo a internet e vou ler, escrever, pesquisar, mas o fato é que sem vigilância, acabei sumindo, por um tempo que já nem sei mais como calcular. E hoje, no meu tempo livre, me senti vazia como há muito não sentia. (Desculpem minhas queridas amigas, vocês a quem eu sempre preguei a liberdade total e o respeito integral às próprias vontades)
Sem vigilância, o ser caótico que me habitava escapou ante a paisagem bucólica do casamento.

(Mas ele, a entidade do movimento, não deve ter ido muito longe, vou já buscá-lo).

O vovô eterno faz a passagem


Vai em paz Bizo,
Te recordamos com carinho,

a importancia que teve em nossas vidas
manda um cheiro pra Vovó, dí-lhe de nossa saudade

Olha por nós

nós que temos que viver

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Retrato para posteridade


29/07/09

Ontem foi muito legal. Nós acordamos as sete e você já tinha feito 3hs de jejum. Tomou o remédio e ficou lá embaixo com teu pai enquanto eu preparava o café. Depois você mamou. Nós tomamos um banhão gostoso debaixo do chuveiro, papai te vestiu um macaquinho fresquinho. Neste dia agente tava meio na pindaíba, tínhamos dez reais e decidimos: no lugar de comprar uma bandeja de frango, compramos uma siripóia.

Ao invés de ficarmos todos encorujados, mamãe varrendo, papai cozinhando e depois todo mundo passar o resto da tarde dormindo, fomos para o pontal pescar siri. Era comida, lazer e diversão na certa. Fomos os três de moto até a balsa onde conhecemos o seu João Sirilo, um senhor forte, firme e cego, que conversa olhando no olho. Ele é lá da Mata Grande e combinamos de tomar um café na casa dele qualquer dia desses.
Bem, compramos a siripóia e teu pai pegou umas catrevagens de peixe na peixaria. Atravessamos de canoa, era meio dia, veja só! E você protegido pela sombrinha de Dona Antonia.
Arrumamos a sombrinha na areia feito guardassol, esticamos a canga, ajeitamos o travesseiro e te acomodamos.
Papai lançou a siripóia e a festa começou. O dia estava lindo, quente e gostoso, pegamos muitos siris. Papai tomava um baile pra desgarrar o siri da póia, foi muito divertido. Eles queriam fugir e teu pai cercava, jogava areia em cima deles, pelejava. Eu derrubei o balde dos siris, todos saíram correndo e foi uma luta só, mas não perdemos nenhum. Você dormiu um pouco e eu fui tomar um banho. Depois te levei na beira do mangue, você adora a natureza e o barulho dos pássaros, o brilho da água e até o vento no rosto você adora. Quando acabou, estávamos tudo e todos devidamente cheios de areia, levantamos acampamento e subimos na balsa.
Em casa você logo quis mamar e dormimos os dois. Quando acordamos teu pai tava de banho tomado e, no fogão, uma bela moqueca de siri. Tinha um vivo que pegou no dedo de seu pai, ele chacoalhou, o siri bateu no teto e saiu correndo pela casa. Agente lá em cima só ouvindo a confusão e dando risada.
Eu comi uns 4 ou 5 siris, teu pai uns 7 ou 8. Nos lambuzamos todo, foi outra bagunça. Tava uma delicia, proteína gostosa, divertida, temperada com o orgulho de termos pego nós mesmos. Seu pai avisou todo mundo inclusive. 'Olha o siri que peguei!'
Tomamos outro banho e seu pai foi passear com você pra eu poder lavar a cozinha. Você tomou um suco de lima na chuquinha e dormiu. Teu pai e eu fizemos amor e dormimos gostoso. Foi um dia incrível, yes, nós nos amamos, yes, nós sabemos pescar, sabemos viver.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Quem sou eu

Eu sou uma mãe, como qualquer outra mãe. Que deixa de ser quem é, algumas horas do dia, alguns dias da semana, alguns meses no ano. Quando nao sou poeta, sou piegas. Pra ser um clichê, sou leoa. Nao fugi de mim, nao desapareci - quero crer. Estou empenhada em dar amor a quem dei a vida. Uma aventura como tantas outras. A mais especial porem. Volto a ser eu quando posso dormir, quando posso sonhar, e nas vezes que posso decidir sozinha. Ainda ando de moto, ainda escalo, pedalo, jogo capoeira, atravesso o rio, me banho na fonte. Ainda volto aos índios. Tenho ainda uma mochila e uma rede. Ainda bebo, ainda fumo, ainda leio, trepo ainda. Mas porem contudo todavia, carregando minha jaquinha. Craquenta, viscosa, grudenta, gostosa, deliciosa, unguenta. Cheirosa, nutritiva, pesada, calorica. A jaca minha.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O curioso caso do vovô eterno

Outro dia liguei pra minha mãe e ela me relatou seu atual drama. Está com meu vozinho em casa. Ele quebrou – desfacelou- o fêmur e não vai mais poder andar. Mamãe esta envolta em fraldas geriátricas e cocôs, dando de comer na boca e limpando as sobras, dando banho, vestindo e despindo o velhinho de 90 anos. Ela não pode mais sair de casa ou fazer coisas outras que não seja zelar. Eu disse, então tudo bem, não é muito diferente da minha rotina com Guy.
É que os velhinhos são nada mais que bebezinho de novo. Ou bebezinhos ás avessas. Estão voltando para o útero, voltando para a terra. Diluindo-se nos elementos dos quais ele é feito.
Todo mundo é louco por um bebezinho fofinho, achando graça quando ele peida ou baba, mas ninguém quer saber de um velhinho empoeirado, vivido, e que já deu, pra você e para o mundo, o que tinha que dar.
Para o bebê agente faz tudo de bom grado porque agente dá de comer e vai vendo ele crescer. O vovô você dá de comer pra ver fenecer. O bebê enroladamente vai aprender a falar e cada vez mais vai se comunicar com você. O vovô vai desaprender a falar, e quanto mais você se esforça para compreendê-lo, mas sem esperança você fica. Dá até vontade de fingir que entendeu e sair de fininho. Quando o bebê dá seus primeiros passos, você logo entende que ele está indo para o mundo, vai te encher de alegrias e orgulhos. O velhinho você pega na mão pra ele desaprender a andar. No auge de seu peso morto e pesado, em ti vai se apoiar. Quando a criança for à escola e a tia disser que ele é muito inteligente, você imaginará o futuro brilhante que ele pode ter. E todo esforço será recompensado. Ele vai te pegar no colo e dizer, mamãe você é a melhor mãe do mundo.
Enquanto o bebê tem o mundo pra conquistar e te dar de presente, o velhinho já não vai dar em nada. Pra ele, todo se esforço, seu tempo, paciência e dinheiro são exclusivamente para que não se sinta abandonado em seu leito de morte.
Nós deveríamos aqui fazer um pacto, e já o digo por mim: o de não prolongar a vida de um velhinho moribundo. Quando o galho secou, por mais que ainda haja folhas verdes, não adianta botar água no vaso. Esforcemo-nos apenas para evitar-lhe a dor e o sofrimento, mas esqueçamos a tecnologia e a ciência se for pra prolongar uma vida cansada, fazer pegar no tranco um órgão falido. Obrigá-lo a continuar funcionando a qualquer custo, só porque julgamos que deste lado é melhor.
Deixemos ir os velhinhos, seguir o curso da natureza, e apenas estejamos lá para segurar-lhe a mão quando fizer a passagem. Ele vai saber que não está só, e que tudo o que ele fez por nós valeu a pena de verdade. Seja lá o que ele tenha acertado e errado, foi bom. Muito obrigada por tudo, pode deixar que daqui vamos sozinhos.
O vovô foi esquecido neste mundo. Tem um câncer de próstata a mais de 10 anos, e este nunca se manifestou. Seus pequenos sintomas foram sempre curados com ervas, unguentos e compressas de argila. Na foto de debutante da mamãe, ele já era velho. Ele sempre foi velho. Acho que nasceu assim. Era o mais velho e capenga de todos os quatro avós, mas foi no enterro de todos os outros três. E você acha que ele tem um pé na cova? Ledo e Ivo engano, ele só quebrou mesmo o fêmur, nada além disso. Estamos preparando um testamento para deixar pra ele quando morrermos.
Pode ir em paz vovô, você não vai precisar mais me amarrar os sapatos. Vai ser simples pra mim, talvez nem tanto pra você, como naquele primeiro dia de aula, quando você deixou aquela mulher me pegar pela mão e me levar pra dentro daquele corredor infinito, aquela incógnita. Você me acenava sorrindo, eu ia chorando, perguntando por que é que eu não podia simplesmente ficar com você.
Pode parar de chorar vovô, que quando chegar lá você vai ver que é legal.
Quisera os velhinhos morrer como Benjamin Button, no colo da mulher amada, como um bebe que adormece tão serenamente que um simples sopro de vento leva-o a um lugar muito, muito menos sofrível.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A bruxa e a estrada, um velho caso de amor

Era sete da noite. Guy, cansado de uma tarde na praia, mamava bem espaçadamente, de olhos fechados, imóvel e sereno, sinal que já ia dormir. Breno subiu as escadas reclamando de dor de cabeça e se deitou, sinal claro de que já ia capotar. Eu, maquiavelicamente, fiquei bem quietinha. Não buli com Guy, não puxei assunto com Breno. Instintivamente detectei uma oportunidade rara: a de ficar sozinha. Nossa! quantas coisas legais eu poderei fazer quando ficar sozinha, coisas que eu nunca mais fiz, que adoro fazer, e que já até me esquecera. Mas agora! agora parece que vou ficar sozinha-inha-inha de marré-de-ci.

Confirmado. Guy capotou e Breno dormia digamos, feito um bebê. Levantei da cama bem de fininho, sem fazer ruído, sorrateira como um pé de pano, temerosa como quem vai fazer algo de errado. Desci as escadas e quando me vi sozinha mesmo, sabem o que eu fiz?

Nada, maravilhosamente não fiz nada. Aliás, fazer nada é uma atividade profundamente necessária. Sim, que tomei um chá, me depilei, vi o jornal, rodei pela casa, me joguei no sofá. Mas acima de tudo, pensei. Pensar denota tempo e uma certa dose de ociosidade.

Vi que em mim mora ainda aquela bruxinha maluca, doida, incauta, sedutora. Que vive a lucidez e rebentos de criatividade na solidão. E percebi que ela ainda tem o poder de me levar daqui, que ela planeja, aguarda a hora certa. Calma e maquiavélica, ela ainda vai me tirar do sossêgo e me levar dar uma banda pelo mundo. Vai bagunçar toda a nossa vida, bagunçar o que já está certo em mim. Vai gerar polêmica com seus quereres irredutíveis. Vai deixar muita gente preocupada.
Tirar-me do lugar comum de uma vida de casamento terá um efeito certeiro: a própria sobrevivência deste.

Quer saber, não vou fazer a menor força para amarrá-la.